Designs Moçambique

Gentes de Inhambane

Há culturas que acreditam que uma fotografia pode roubar a alma, captura-la, aprisioná-la dentro dos elementos orgânicos da mesma.

Para mim não existe um roubo, mas sim um levar emprestado de um momento...de um sorriso. Para mim existe o eternizar de um fragmento em que a alma de quem fotografa se cruza com alma de quem é fotografado.


De regresso a casa com a mochila cheia de coisas boas (fotos). Com o coração apertado por ter feito tão pouco quando há tanto para fazer em África. Mesmo assim, fazer pouco é sempre fazer muito para aquela gente que quase nada tem.
Chegar a Portugal e ver a loucura desenfreada, causada pelo "black friday". Ver pessoas que se atropelam para adquirir bens supérfluos, como se de bens essenciais à sobrevivência se tratassem... É um contraste tão radical que ainda estou a digerir. Em África as pessoas passam a calma dos dias apenas na esperança de adquirir os alimentos básicos para viver mais um dia. Ali sim, "bens essenciais para a sobrevivência", fazem todo o sentido.
É impressão minha ou andamos todos loucos!?


"A necessidade aguça o engenho." Provérbio português.
Os meninos de África certamente não conhecem o provérbio, mas melhor que ninguém o colocam em prática.
Em Portugal onde, felizmente ou não, as nossas crianças tudo têm e o supérfluo substituiu o engenho e a imaginação. O supérfluo, no dicionário: O que é dispensável; algo ou alguém que apresenta caráter desnecessário, extravagante: o supérfluo de uma relação; o supérfluo não serve para nada!
Esta é a geração que estamos a criar. A geração do supérfluo que matou o engenho e o sonho...o supérfluo que está a matar os afectos e o amor.


A felicidade que as crianças de África têm quando recebem brinquedos usados, é algo fascinante. É uma forma de entender a diferença entre dois mundos. O mundo daqueles onde há excesso de bens materiais e o mundo daqueles que têm a riqueza da felicidade.

Faz poucos dias, ouvia o meu amigo Bruno dizer para uma plateia de crianças: "A literacia não é só o saber bem ler e escrever. Literacia é também a formação cívica. O respeito pelo próximo e pelo planeta. Literacia é entender que fazemos parte de um todo e que devemos trabalhar para um bem comum que se chama humanidade."
Em África muitas crianças não sabem ler nem escrever. Os meninos de Moçambique com quem me cruzei, são crianças obedientes, crianças que valorizam os mais velhos, cuidam dos mais pequenos, têm tarefas atribuídas que cumprem...são crianças que respeitam a natureza que os rodeia.
As crianças de África podem dar lições de "literacia" a todos nós, disso não tenho dúvidas.